Certamente que isto é uma grande parte da nossa dignidade... que possamos conhecer e que, através de nós, a matéria possa conhecer-se a si própria; que, começando com protões e electrões, saídos do princípio dos tempos e da vastidão do espaço, possamos começar a entender; que, organizados como estão em nós, o hidrogénio, o carbono, o nitrogénio, o oxigénio, esses 16 a 21 elementos, a água, a luz do Sol- todos eles, tendo-se transformado em nós, possam começar a entender o que são, e como se tornaram nisso. George Wald (Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia) (1964)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O SEGREDO DO LAGO VOSTOK

O homem está próximo de realizar uma das prováveis maiores descobertas do século. O lago Vostok representa possibilidades de resposta sobre questões essenciais do nosso planeta - e até mesmo de outros.
Faz parte da natureza humana a curiosidade, essa fascinante força motriz para a descoberta e, consequentemente, para o conhecimento. Habitamos um mundo que contém demasiadas espécies de vida, com as quais coexistimos sempre. E é de nosso feitio explorar, analisar e muitas vezes usurpar aquilo que queremos compreender. Com o lago Vostok a curiosidade não é diferente, mas o homem age com muita cautela na exploração deste lugar que pode conter informações preciosas e, até agora, únicas.
Em 1957, os russos estabeleceram uma remota base na Antárctida, a estação Vostok, lugar este que teve a mais baixa temperatura da história do planeta registada pelo homem: - 89º C. Manter esta estação por questões logísticas, como suprimento dos integrantes, foi algo difícil e, se não fosse por causa do lago, o nome Vostok se perderia facilmente na história. O que aconteceu, entretanto, foi que nos anos 70 os britânicos sobrevoaram esta área utilizando um radar aéreo e, ao passarem pela estação Vostok, foi recebido um sinal compatível a um sobrevoo marítimo. Mais 20 anos foram necessários para que as suspeitas fossem confirmadas e assim um satélite apontou a existência de água 4 km abaixo da superfície. Um lago de 250km de comprimento e 50 km de largura (na sua parte mais larga).
A existência de água no lugar mais frio da planeta aparentemente não faz sentido, mas existe uma explicação geológica para isso: abaixo da crosta terrestre existe o que os geólogos chamam de manto, rochas de vasta profundidade e consistência viscosa, com temperaturas que variam de 600º C até 3.500º C (as lavas oriundas de actividades vulcânicas se formam nesta camada). Desta forma seria possível que, em épocas remotas, cataclismos criassem uma estrutura propícia para a formação de um lago abaixo do gelo. Acima do lago existe ainda uma espessa camada de gelo que serve como um isolante térmico, garantindo seu estado líquido.
O fascínio científico pelo lago Vostok deve-se à sua imaculada propriedade física. Acredita-se que sua água deva possuir mais de 500 milhões de anos e desta forma organismos primitivos como bactérias poderiam ter atravessado eras, protegidos completamente de qualquer tipo de exposição ambiental.
Uma importante questão levantada em torno das especulações sobre a vida no lago Vostok foi a da necessidade da luz para a existência de vida, uma premissa que já foi devidamente quebrada. Nas profundezas dos oceanos e de cavernas, onde a luz solar não consegue chegar, existem diferentes espécies de animais bastante activos e com um organismo diferenciado. Normalmente de coloração transparente e cegos, estes peixes e insectos evoluíram eficientemente para sua sobrevivência, o que contribui para a hipótese de existência de vida no lago Vostok.
Outro indício ainda mais contundente foi a descoberta em 2005 de que o lago possui movimentação, correnteza. O posicionamento da lua e do sol alteram a sua superfície, fazendo com que ele expanda até 2 cm e, desta forma, compreendendo que movimento é energia, a tese da possibilidade de vida é mantida.
Essa possibilidade chamou atenção também da NASA, por um motivo bastante intrigante. Em nosso sistema solar, outros planetas também possuem luas e, no caso de Júpiter, existe uma lua em especial, chamada Europa, que contém uma superfície similar à da região da Antárctida onde está o lago Vostok. Desta forma, a comprovação de vida nas profundezas da região gélida séria um importante indício da possibilidade de vida extraterrestre.
Em 2001, o laboratório Jet Propulsion começou a criar uma espécie de broca altamente sofisticada chamada “Cryobot”, que seria a chave para alcançar esta água intocável pelo homem e por todo ecossistema, e assim obter uma amostra segura sem contaminação. Pretende também lançar ao lago o “Hydrobot”, uma máquina que servirá como câmara submarina e mostrará o que contêm as misteriosas águas do lago Vostok, estando fadada a permanecer aí para sempre.
Entretanto, esta expedição tem um carácter extremamente minucioso, uma vez que o contacto indevido da broca ou demais equipamentos com a água contaminaria toda a amostra, logo o resultado seria inválido e o estado primordial das águas estaria perdido para todo o sempre. É que a água estará intacta apenas uma vez (a tão famosa virgindade dando o seu ar da graça). A solução para o problema será a troca do aparelho usado nos últimos metros de perfuração, recorrendo a uma tecnologia de auto-esterilização.
         CRYOBOT

No início de 2010, o líder da expedição russa, Valery Lukin, revelou que faltariam apenas 100 metros para alcançar a água, e o laboratório físico nuclear de São Petersburgo está criando os últimos equipamentos necessários para o ato final. Espera-se chegar à água na corrente expedição, de 2011-2012, quando todo o equipamento necessário estiver pronto para utilização. A perfuração continuará a uma velocidade de 4 metros por dia.
Questões universais como de onde viemos, para onde vamos, se existe vida em outro lugar, são comummente ouvidas a gente hipócrita fazendo voz esdrúxula para imitar um suposto filósofo, cientista. É uma reacção medíocre (na média) desprezar aquilo que não compreendemos; no entanto, tem gente que leva isso a sério. Em breve estes cientistas poderão medir quão impactantes serão as provas obtidas no lago Vostok e assim dar continuidade à sua saga na busca de respostas. Boa sorte para eles, e que utilizem as informações com sabedoria, para o bem.

Tiago Vargas in OBVIOUS



terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Cabras Ibex - Uma lição de optimismo

Sejamos sinceros: de um modo geral, as cabras nunca foram muito populares. Nunca ninguém gosta realmente muito delas. E, provavelmente desde o fim da Heidi nas Montanhas, nenhum miúdo deve referi-las como o seu animal preferido. Ostracizámos desde cedo estes animais de quatro patas, presenteando-os com a nossa indiferença. Mas elas existem. E nós temos muito a aprender com elas. Ora veja.
Experimente fazer o seguinte exercício: abra um dicionário de Língua Portuguesa na letra “C” e procure a palavra cabra. Provavelmente vai encontrar lá algo deste género:
cabra1|s.f|s.2 gén.
1. Mamífero ruminante cavicórneo; 2. Fêmea do bode; 3. Pequeno guindaste; 4. Insecto semelhante à aranha e que anda à tona de água; 5. Peixe do género triglo, também conhecido por cabrita ou cabrinha; 6. Mulher de mau génio ou que berra muito; 7. Prostituta, rameira.
8. Bebedeira; 9. Mestiço filho de mulato e negra ou vice-versa.
Agora exclua o 1 e 2, que são as características gerais da cabra, ou o que a define; exclua também o 3, o 4 e o 5 – que podemos considerar como particularidades à volta do nome cabra; e detenha-se exclusivamente no 6, no 7 e no 8. Não são muito lisonjeadores, pois não? Principalmente, o 7.
Se tentar fazer o mesmo exercício com as palavras: porca, vaca ou cadela, verá que nenhum desses nomes é considerado tão ofensivo se usado fora do reino animal. Curioso, não? O que nos leva a perguntar que mal terão feito as cabras para ficarem associadas a tamanha sujidade de campo semântico.
Mas adiante. Se vir um pouco mais à frente no seu dicionário, também por lá deverá encontrar algo como: cabra montês ou montesa: cabra selvagem encontrada nos Alpes europeus e em regiões montanhosas da Ásia e da África, com longos chifres estriados e curvados para trás e pêlo de cor parda. Pois bem, nos Alpes Italianos, mais concretamente na Barragem de Cingino, há uma espécie de cabra montês em particular que parece realmente estar-se nas tintas para o que os outros podem ou não pensar delas. São as cabras ibex.



As cabras ibex são conhecidas entre outras coisas pelas suas excelentes capacidades de escalada. Normalmente, escalam rochedos e coisas que tais, mas nesta região a Norte de Itália elas esmeraram-se e resolveram escalar as paredes de uma barragem com nada mais, nada menos, do que 48.76 metros de altura e com uma inclinação de quase 90º. Calcula-se que não sofram de vertigens.
Cá de baixo, nós, os que temos polegares oponíveis, mas que, sem recurso a bom material de escalada, dificilmente conseguiríamos fazer o mesmo, usamos um outro dedo, o indicador, e vaticinamos o juízo final: estas cabras só podem estar doidas.
Estes animais herbívoros alimentam-se fundamentalmente de ervas, feno, plantas e folhas, e refugiam-se nas alturas como forma de escapar aos seus predadores: ursos, lobos, raposas, águias douradas e nós, os humanos. Mas mesmo isto não justifica inteiramente a subida da barragem de Cingino, com tão bom rochedo e de vista desafogada que pulula os alpes italianos. Será puro exibicionismo?
Aparentemente, a resposta está no sal contido nos tijolos da barragem. Estes são ricos em sais minerais, e elas parecem gostar mesmo muito disso, para desafiarem de forma tão descarada a lei da gravidade e ainda terem a petulância de não mostrar qualquer receio em caírem dali abaixo.
Não se sabe quem foi a cabra que primeiro terá tido ideia tão inovadora, nem porque é que as outras decidiram segui-la. A única coisa que sabemos é que essa cabra viu algo de que gostou e foi na sua direcção. Não pensou na barragem como um obstáculo - tirou partido dela.
Não vem no dicionário mas, entre outras coisas, estamos em crer que ser uma cabra implica ter coragem e uma atitude descomplicada face às situações do dia-a-dia. Porque apesar de poderem morrer a tentar lamber o sal de que tanto gostam, o medo não faz parte do seu léxico. Elas não se preocupam. Personificam o optimismo e desconhecem o significado da palavra impossível. Só querem mesmo saber do sal que lhes dá sabor à vida.



Fonte: obvious

sábado, 14 de agosto de 2010

Barragens afectam indígenas

Electricidade verde prejudica território e estilo de vida de povos tribais em vários pontos do mundo

Com o mote do Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado na passada segunda-feira, a Survival International alertou para o impacto devastador dos efeitos da construção de barragens hidroeléctricas nos povos tribais.

Através de casos reais na Ásia, África e América, o artigo Presos no Desenvolvimento – Povos Indígenas e Barragens Hidroeléctricas, expõe o custo oculto da electricidade verde.
Uma década depois de a Comissão Mundial de Barragens reconhecer que os projectos “conduziram ao empobrecimento e ao sofrimento de milhões de pessoas”, continuamos a assistir a um rápido crescimento global na construção de barragens, liderado por grupos de pressão internacional desta indústria.
O Banco Mundial, por exemplo, destina onze mil milhões de dólares para a construção de 211 projectos hidroeléctricos de todo o mundo. O artigo afirma que os povos indígenas se encontram à margem, com os seus direitos violados e as suas terras destruídas.
Da Amazónia ao Bornéu


Os indígenas amazónicos Enawene Nawe vivem numa zona chuvosa de savana tropical no estado de Mato Grosso, no oeste brasileiro, onde as autoridades do país pretendem construir 29 barragens.





O povo Penan Sarawak, na parte da Malásia da ilha de Bornéu, pode ser expulso das suas terras para dar lugar a outra barragem. Os indígenas estão a lutar para deter a desconstrução do que resta das suas selvas e do seu modo de vida.
                                                          Homem da tribo Penan Sarawak

Outros povos da Etiópia tambem podem vir a ser forçados a depender de ajuda alimentar se não se travar mais uma estrutura no famoso rio Omo. Um homem do povo Kwegu, no vale de Omo, afirmou: “A nossa terra está estragada. Fecharam a água e agora passamos fome. Abram a barragem e deixem que a água flua”.
Esta semana, centenas de indígenas brasileiros reuniram-se para mostrar oposição à barragem de Belo Monte, a terceira maior do mundo, que ameaça o território de vários povos e as suas fontes de alimento.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Os excluídos da água



O capitalismo mercantiliza os bens da natureza, os frutos do trabalho humano, todos os aspectos de nossa vida. Aprendemos na escola: 71% de nosso corpo são água, a mesma proporção existente em nosso planeta.
Bebemos litros de água no decorrer do dia. Do velho e bom filtro? Não. Em geral, de garrafas pet vendidas em supermercados. Quem garante que a água engarrafada é mais potável que a filtrada em casa? A propaganda; ela faz nossa cabeça e direciona nossos hábitos.
De olho no lucro fácil, empresas transnacionais procuram incutir na opinião pública a ideia da água como mercadoria de grande valor económico, capaz de tornar-se uma fonte de renda para  qualquer país. Retira-se da água sua dimensão de direito humano, seu caráter vital, sua dimensão sagrada. Quem se opõe a esta ideologia é rotulado como "contrário ao progresso". Porém, é na defesa da água como direito e bem comum que reside a possibilidade de salvarmos o planeta Terra - "Planeta-Água" - da desolação, e assegurarmos a vida das gerações futuras.
O raciocínio da mercantilização da água é simples: tendo que pagar, a sua utilização será mais racional e cuidadosa. Ora, isso não implica incluir a água na categoria de mercadoria regida pelas leis do mercado.
Este argumento tem sua parte de verdade - cuida-se melhor daquilo que é mais caro. As consequências, porém, podem ser graves se a água for regida pela lei da oferta e da procura. A cobrança pelo uso da água pode ser um mecanismo de gerenciamento desde que se estabeleçam preços diferenciados conforme a concessão de uso. Uma fábrica de cerveja retira do poço artesiano toda água que necessita, sem pagar nada por ela. Depois descarrega parte dessa água, agora poluída por detergentes e dejetos, no rio mais próximo. O lucro com a venda da cerveja é todo dela; a perda no lençol subterrâneo e a poluição do rio são da comunidade local.
Uma boa gestão cobraria preço baixo pela água usada como insumo e alto sobre o esgoto industrial, de modo a obrigar a indústria a filtrar dejetos antes de lançá-los de volta ao rio. Também é preciso estabelecer preços diferenciados conforme o uso da água (consumo humano, esgoto, energia elétrica, produção industrial, agricultura irrigada, lazer etc).
Nas zonas urbanas já pagamos pelos serviços de captação, tratamento e distribuição da água, não pela água em si. A novidade é que, além dos serviços, deveremos pagar também pelo metro cúbico de água utilizada. Se este preço adicional vier a excluir alguém do acesso à água, tal medida será eticamente inaceitável.
O princípio que obriga a quem usa, pagar, não pode ser aceito ao contrário: "quem não paga, não usa." Não sendo a água uma mercadoria, mas bem de domínio público, o princípio só se aplica como norma reguladora de uso, seja quantitativa (quem usa mais água, paga mais), seja qualitativamente (quem usa para fins lucrativos paga mais do que quem usa para consumo pessoal). Se assim não for, a água deixará de ser direito de todos os seres vivos, criando-se um impasse ético e uma tragédia: a dos excluídos da água.
in, Diário Liberdade.

sábado, 17 de julho de 2010

Águas contaminadas

Água contaminada:
EUA gastam milhões

Centro de Controlo de Doenças norte-americano recomenda melhor fiscalização das piscinas

  As doenças provocadas nos Estados Unidos por águas contaminadas podem custar até 539 milhões de dólares (422 milhões de euros) anuais em hospitalizações, concluiu hoje o Centro de Controlo de Doenças norte-americano, recomendando uma melhor fiscalização das piscinas.

No relatório divulgado, o Centro refere que sobretudo três doenças são provocadas por bactérias que se encontram na água: a pneumonia aguda, causada pela legionela, a diarreia provocada pelo parasita cryptosporidium e a diarreia desencadeada pela bactéria giardiasis.

Uma hospitalização por legionela custa, em média, 34 mil dólares (26,6 mil euros), ao passo que as diarreias provocadas pela bactéria giardiasis podem custar nove mil dólares (sete mil euros) e, no caso da cryptosporidium, 21 mil dólares (16 mil euros).


“A maior parte das pessoas pensa que estas doenças não são mais do que uma indisposição passageira. Mas estas infecções podem provocar problemas muito graves que implicam internamentos hospitalares de mais de uma semana, o que faz aumentar as despesas de saúde”, afirmou Michael Beach, autor do estudo.



Os sintomas das doenças provocadas por águas contaminadas com bactérias passam também por erupções, infecções das orelhas e dos olhos e complicações neurológicas e respiratórias que podem ser fatais.

“Os modestos investimentos na prevenção podem levar à redução do número de casos e economizar substancialmente as despesas de saúde”, refere o relatório, que recomenda a realização de campanhas educativas, uma melhor manutenção das redes de distribuição de água nos edifícios e uma inspecção regular das piscinas e das zonas balneares artificiais.


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